terça-feira, 1 de abril de 2008

Antes Só do que Mal Casado * *

Teria Ben Stiller perdido o jeito para fazer comédia? Esta é a pergunta que não quer calar quando assistimos ao fraquinho filme "Antes Só do que Mal Casado", sua mais recente empreitada cinematográfica. Na verdade, por este filme parece que até a dupla de irmãos-diretores Bobby e Peter Farrelly perderam o jeito, haja vista seus filmes anteriores muito melhores, dentre eles o divertidíssimo "Quem vai ficar com Mary?". Seja como for, eis mais um grande sucesso de bilheteria, o que não é surpresa em filmes desse gênero, principalmente quando vêm protagonizados por um competente (e consagrado) ator cômico como Stiller.

Eddie Cantrow (Ben Stiller), é um solteirão convicto que de repente entra numa crise existencial, ao perceber que é o único "de sua turma" que ainda está solteiro. O ápice de sua crise ocorre no casamento de sua ex-namorada, quando ele é colocado na mesa das crianças por ser o único "adulto sem par" na festa, e então a necessidade de encontrar sua alma gêmea começa a persegui-lo mais que o habitual. Também com a ajuda de seu espevitado pai (Jerry Stiller, pai de Ben na vida real), Eddie sai à caça da mulher ideal, quando encontra Lila (Malin Akerman), uma estonteante loira linda que parece ser a mulher dos sonhos de qualquer homem.

Acreditando finalmente ter encontrado sua alma gêmea, Eddie antecipa o pedido de casamento com apenas 6 semanas de namoro, para evitar que Lila vá para um trabalho em outro Continente, já que a empresa não costuma mandar para fora funcionários casados. O casamento acontece como um conto de fadas, mas é na lua-de-mel que Eddie descobre que sua esposa não é nada daquilo que aparentava.

Uma sucessão de decepções vai tumultuando a Lua de Mel do casal, e é neste caos que Eddie Eddie conhece Miranda (Michelle Monaghan), uma garota que parecer ser a verdadeira mulher ideal, bem diferente daquele "monstro" com quem Eddie se casou praticamente por engano. Meio que sem querer, Eddie acaba envolvido por Miranda e sua excêntrica família, e não consegue deixar claro aos envolvidos que é um homem casado que está ali em Lua de Mel, o que, lógico, gera uma série de confusões bastante divertidas (e às vezes bizarras) envolvendo Lili, Miranda, Eddie e todos os demais hóspedes do Hotel.

Antes Só do que Mal Casado é uma comédia rasgada que sem dúvida provoca muitos risos, e algumas situações são verdadeiramente hilárias, especialmente aquelas piadinhas infames relacionadas a casamento com as quais quase todos os casados se identificam. Mas também é uma comédia que apela - além da conta - para o humor de mau gosto, exagerando nas bizarrices e escatologias que, se um dia foram engraçadas, hoje já estão esgotadas e completamente sem graça. Além do mais, é um filme bem clichê e previsível, não traz nenhuma grande inovação que mereça nota para o gênero cômico, e até mesmo a atrativa presença de Ben Stiller como protagonista, como eu já disse no começo, deixa bastante a desejar.

Eu, que não sou muito fã de comédias que não sejam excelentes e inteligentes, posso dizer que quase não gostei do filme. Surpreende saber que faturou tanto apenas no primeiro final de semana de exibição nos EUA, considerando tantos outros filmes infinitamente melhores em cartaz ao mesmo tempo. O que prova que, sem dúvida, é um gênero que agrada ao grande público, e apesar de estar em fase de esgotamento, as estatísticas mostram que ainda existe um longo caminho até a exaustão completa. Tomara que até lá novas fórmulas sejam encontradas, e que possamos voltar a rir por uma comédia genuinamente boa, o que não é o caso deste filme.

Dispensável.

Alpha Dog * * * *

Surpreendente. Alpha Dog é um filme surpreendente, no bom e no mau sentido... Digo isso porque, ao ler a sinopse complexa e ver o elenco jovem pouco conhecido (à exceção do pop star Justin Timberlake), preconceituosamente achei que seria mais um filminho violento sem muito sentido, o que não é, pelo menos não exatamente. E também porque é assustador ver até que ponto a inconsequência juvenil, alimentada pelo uso descontrolado de drogas pesadas e pela negligência dos pais é capaz de destruir vidas em efeito dominó.

O longa se baseia na história real do criminoso mais jovem a entrar na lista dos mais procurados pelo FBI. Aqui, o protagonista recebe o codinome Johnny Truelove (Emile Hirsch), um rapaz de pouco mais de 18 anos que vive como uma espécie de "rei do submundo" na badalada Los Angeles dos anos 90, morando numa bela mansão, sempre rodeado de fiéis amigos e belas garotas, onde exerce sua principal atividade de traficante de drogas, aparentemente com o aval do pai Sonny Truelove (Bruce Willis).

Entre farras e "viagens" proporcionadas por variados tipos de drogas, esses jovens levam uma vida desregrada aparentemente sob as vistas grossas dos respectivos pais que, muito ricos e muito ocupados, preferem não ter que lidar com o problema dos filhos de frente, adotando a tática mais confortável (e, por que não dizer, mais covarde). Mas como nesse submundo nem tudo são flores, também não seria diferente com os garotos de LA. Johnny Truelove inicia uma guerra particular contra Jake Mazursky (Ben Foster), um rapaz igualmente jovem que está em liberdade condicional, mas não consegue manter-se na linha, muito menos longe das drogas.

Por conta de uma dívida de Jake, Johnny decide sequestrar seu irmão mais novo, Zach (Anton Yelchin), um adolescente de 15 anos, e o faz com a ajuda dos fiéis amigos e parceiros Frankie (Justin Timberlake) e Elvis. O crime não é exatamente planejado, e vai tomando proporções sérias na mesma medida em que os rapazes se vêem encurralados e aterrorizados com as possíveis consequências de seus atos.

Na companhia de seus algozes, Zach sequer esboça alguma resistência, porque vê na situação a oportunidade de viver dias de liberdade como jamais sonhara sob os olhos repressores da mãe (vivida por Sharon Stone). Acaba criando laços de amizade com os sequestradores, principalmente com Frankie, e passa seus 3 dias de cárcere curtindo festas regadas a muita droga, bebida e mulheres sensuais, tornando-se uma espécie de "celebridade" por ser conhecido como "o garoto sequestrado".

Mas as coisas não saem exatamente como o planejado porque Johnny e sua gangue, pressionados pela prisão iminente por sequestro, e ameaçados pela possibilidade de pegarem prisão perpétua, acabam tomando as decisões mais extremas para tentar resolver o caso, destruindo suas próprias vidas e, obviamente, as famílias envolvidas.

Enquanto obra cinematográfica, Alpha Dog deixa a desejar num detalhe aqui, outro ali, como a direção de arte irregular e às vezes até precária, ou mesmo pelo roteiro falho em diversos pontos. Na verdade, lendo um pouco sobre a tal história real que inspirou o filme, notei que algumas situações foram "mascaradas" e até modificadas, aparentemente sem muita necessidade, como a captura do criminoso que aconteceu em 2005 no Brasil, e não no Paraguai como diz o filme.

De qualquer forma, como história Alpha Dog é um filme a ser visto, com certeza. Como eu disse no início, por mais que isso seja um assunto já explorado e reexplorado no cinema (e na mídia em geral), ainda assim pode ser surpreendente ver a capacidade destrutiva das drogas, e tudo é muito mais chocante quando sabemos tratar-se de uma história real onde vidas reais foram jogadas no lixo, assim como vidas reais são jogadas no lixo a todo momento hoje em dia, diante da proliferação indiscriminada do uso de drogas por todas as camadas sociais.

E eis aí um grande mérito do filme: por contar com um elenco jovem carismático e com o "chamariz" Justin Timberlake, além da trilha sonora basicamente de raps dos anos 90, certamente é um filme que atrai grande interesse do público jovem, o mesmo público jovem que está exposto à tentação das drogas o tempo todo, na escola, nas festas, nas baladas, e talvez o fim desgraçado dos seus protagonistas acabe servindo de alerta é desestímulo àqueles que oscilam entre mergulhar ou não nessa viagem quase sempre sem volta.

Vale a pena conferir!

Um Lugar para Recomeçar * * * *

Confesso que torci o nariz quando pensei no que poderia virar a fusão, num mesmo filme, de nomes consagrados como Robert Redford e Morgan Freeman com a eterna aspirante a atriz Jenifer Lopez. Achei que de alguma forma a canastrice da estonteante (como ela é linda!) J.Lo pudesse contaminar o enorme talento dos "tiozinhos" Redford e Freeman, mas Um Lugar Para Recomeçar me provou justamente o contrário. Grata surpresa!

Esse comovente e delicado filme do cineasta sueco Lasse Halström passa-se no estado de Wyoming, nos EUA, onde Einar (o estupendo e eternamente lindo Robert Redford) e Mitch (o também brilhante Morgan Freeman), amigos de longa data, dividem a administração de um Rancho. Na verdade, a administração do lugar já não é mais tão dividida como em outros tempos, pois Einar dedica-se também a cuidar do amigo que teve parte de suas pernas amputadas após ser atacado por um lendário urso local. Ainda assim, levam sua rotina pautados na previsibilidade e na mesmice de todo dia, e parecem felizes apesar das cicatrizes que marcam suas vidas - cicatrizes físicas no caso de Mitch, e cicatrizes emocionais no caso de Einar, principalmente pela precoce perda de seu único filho.

A calma e a tranquilidade da vida desses dois senhores é subitamente abalada com a imprevista chegada de Jean (Jenifer Lopez), nora de Einar que não tinha nenhum contato com ele desde o funeral de Griffin, e que traz consigo sua adorável filha Griff (Becca Gardner), uma garotinha de 11 anos que sequer sabia da existência do avô (nem o avô sabia da existência dela). Jean está na verdade fugindo do seu violento namorado, e como não tinha mais nenhum lugar pra onde ir, decidiu enfrentar o passado e encarar o sogro, que sempre a culpou pelo acidente automobilístico que matou Griffin.

Profundamente amargurado, Einar não recebe bem a "novidade", e não é nada receptivo à nora e à neta que chegam como que para causar-lhe ainda mais sofrimento, desenterrando lembranças do passado e mexendo em feridas não cicatrizadas. Mas, ao mesmo tempo em que a presença das duas no Rancho é uma lembrança viva de um passado irrecuperável, é também um sopro de vitalidade para esse velho durão, e apesar da resistência de Einar em lidar diretamente com essa família - a única que lhe resta, seu coração acaba sendo aquecido pela neta, que ele aos poucos vai enxergando como um pedacinho de seu filho ainda na Terra.

Ajudado pelos sábios conselhos do velho amigo Mitch - com quem trava alguns diálogos divertidíssimos - e cativado pelo amor sincero da pequena Griff, Einar acaba descobrindo que o único caminho possível é o perdão, e que somente através do perdão alcançará a paz de espírito que precisa para seguir com dignidade o resto de seus dias.

Ao abordar questões tão pesadas como perdas, amarguras e ressentimentos, Um Lugar para Recomeçar poderia facilmente cair na tentação do dramalhão fácil, mas não é o que acontece, já que o filme preza pela sensibilidade, tornando-se profundamente comovente de maneira sutil, sem grandes apelos melodramáticos. Não é exatamente um tema original, pelo contrário, há muita semelhança com outro filme bem parecido lançado anos antes - Uma Lição de Vida, mas aqui o enfoque é essencialmente humano, demonstrando com delicadeza as fraquezas e os conflitos pessoais de suas personagens sem caricaturizá-las, tornando-as tão reais quanto possível e, por isso mesmo, fazendo com que o espectador se apaixone por aquelas pessoas com a mesma intensidade que torce para que encontrem a felicidade.

Desnecessário falar que a dupla protagonista vivida por Robert Redford e Morgan Freeman dá um show. São realmente uns monstros do cinema, grandes atores e grandes figuras, e certamente muito responsáveis pelo resultado final extremamente agradável. J.Lo tem um papel pequeno, coadjuvante, mas dá conta do recado justamente por não querer aparecer mais do que os demais personagens, empregando o tom apropriado a uma mulher também cheia de conflitos. E, para finalizar, há a presença da fofa garotinha Becca Gardner, que surpreende por ser tão jovem e capaz de representar algo tão profundo, sem titubear. A fotografia é caprichada, a direção de arte minunciosa, a trilha sonora delicada, e o resultado é óbvio:

Um filme emocionante. Não deixe de assistir!

Orgulho e Preconceito * * * *

"Orgulho e Preconceito" já foi adaptado muitas vezes - para o cinema, para a TV, para o teatro, o que por si só já é prova do sucesso deste clássico da literatura mundial escrito por Jane Austen. E talvez esse enorme sucesso deva-se a uma constatação muito simples: Orgulho e Preconceito é, antes de mais nada, um "romanção" no melhor sentido da palavra... Um romance muito bem escrito, que foi também, neste caso, primorosamente adaptado para as telonas.

No final do século 18, a maior preocupação das moças da sociedade inglesa era arrumar um marido. Elas viviam em função disso, e a cada festa renovavam-se as esperanças das solteiras em arrumar finalmente um bom casamento. Imaginem então qual não era a situação da Sra. Bennet (Brenda Blethyn), mãe de 5 filhas - Jane (Rosamund Pike), a mais bela; Lizzie (Keira Knightley), a mais culta; Lydia (Jena Malone), a "saidinha"; Kitty (Carey Mulligan), a inocente; e Mary (Talulah Riley), a mais avessa à idéia de casamento - todas ainda solteiras, e praticamente todas já em idade de casar...

Mãe e filhas levam a busca por um bom casamento bastante a sério, mas a Sra. Bennet não possui muito senso de elegância e é capaz dos comportamentos mais absurdos quando há um pretendente à vista. As moças, por sua vez, encaram o comportamento da mãe com bom humor na maioria das vezes, mas sempre que a situação fica vergonhosa demais, encontram o equilíbrio necessário no colo do passivo pai Sr. Bennet (Donald Sutherland).

E então surge na vida dessas mulheres o "famoso" Sr. Bingley (Simon Woods), que compra uma propriedade na vizinhança e ali se instala, deixando as solteiras eufóricas por ser o ideal do bom partido: bonito, rico e solteiro. Junto com o Sr. Bingley, entretanto, instalam-se também seu antipático amigo Sr. Darcy (Matthew Macfadyen) e sua esnobe irmã, pessoas que aparentemente exercem enorme influência sobre as escolhas do rapaz.

Num dos muitos grandes bailes sociais realizados com objetivos casadoiros, Jane logo se encanta pelo Sr. Bingley, encantamento recíproco, aliás. Da mesma forma, Lizzie logo se irrita com o nariz empinado do Sr. Darcy, e ambos trocam farpas afiadíssimas já no primeiro encontro, implicância mútua que, obviamente, como nos melhores romances, mais tarde viraria interesse mútuo.

A partir desse cenário, a trama é construída de maneira totalmente previsível, mas não menos cativante. O amor a princípio óbvio de Jane e Sr. Bingley sofre interferências externas que quebram ambos os corações, da mesma forma que a antipatia mútua entre Lizzie e Sr. Darcy logo vira uma paixão avassaladora. Recheado de diálogos inteligentes e afiados, ora apelando para a ironia, ora apelando para o amor poético, o filme vai nos levando para um final totalmente esperado, mas que mesmo assim consegue fazer suspirar.

Keira Knightley, a protagonista, recebeu sua primeira indicação ao Oscar pelo papel, o que considero particularmente um exagero. É verdade que ela está bem, principalmente por ser uma personagem que não tem a seu favor nem o trunfo de ser a mais bela da história nem o trunfo de ser a coitadinha, e mesmo assim cativa profundamente o expectador logo no começo pelo seu comportamento sempre cheio de princípios e pelos seus sorrisos luminosos, mas daí a ser indicada ao Oscar foi um pouco demais.

Aliás, Orgulho e Preconceito não é um filme de destaque para um único ator/atriz, pelo contrário: o elenco "coadjuvante" é incrível, especialmente o casal Sr. e Sra. Bennet, ambos fabulosos. A cena final, por exemplo, é um deleite, um presente do veterano Donald Sutherland para o espectador, e fecha com chave de ouro essa genuína história de amor.

Assim, Orgulho e Preconceito é um ótimo filme... um "romanção", como eu disse no começo, mas dos bons mesmo, arrebatador, conduzido de maneira caprichada, com uma fotografia estonteante, trilha sonora idem, culminando no tão desejado final das melhores histórias de amor, o "Felizes Para Sempre".

Não perca!

A Criança * * * *

De vez em quando aparece um filme novo abordando a questão da gravidez na adolescência e suas consequências, sob o mais diversos pontos de vista - dramático, sarcástico, romântico, trágico, cômico.

Em "A Criança" (L´Enfant), procução belgo-francesa premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2005, o assunto é abordado sob quase todos esses aspectos ao mesmo tempo, mas o foco principal é a irresponsabilidade, o que o torna um filme bastante indigesto, por assim dizer.

Sonia (Déborah François) acaba de sair da maternidade com seu bebê nos braços, e vaga pelas ruas atrás do namorado Bruno (Jérémie Renier), que sequer foi visitá-la durante sua estadia no Hospital. Bruno, por sua vez, é um ladrãozinho de meia tijela que parece não se importar com absolutamente nada a não ser com o próprio umbigo, e embora consiga demonstrar algum afeto pela namorada, o mesmo não acontece com o bebê, ao qual fica indiferente desde o primeiro momento.

Sonia e Bruno não planejaram o filho, lógico, e com o bebê nos braços não têm a menor idéia do que precisam fazer. Irresponsavelmente, expõem o bebê a toda sorte de riscos, até porque intencionam manter a mesma vida marginal de antes, sem se dar conta das implicações da nova responsabilidade. O instinto maternal de Sonia acaba aflorando e ela consegue aos poucos se distanciar do excesso, o que não acontece com Bruno que, obcecado pelo dinheiro fácil que o crime lhe rende e totalmente avesso a assumir um emprego formal, acaba vislumbrando no próprio filho a possibilidade de um golpe que lhe renderia uma grana jamais antes recebida.

Chega a ser chocante a capacidade de Bruno em negociar o próprio filho em troca de algum dinheiro, mas a trama mostra sua enorme frieza da mesma forma que mostra sua enorme falta de noção de realidade e de responsabilidade, de modo que sequer conseguimos apontá-lo como vilão. É como se Bruno fosse, antes de mais nada, uma vítima da própria vida, uma vítima da falta de valores da humanidade, uma vítima da falta de formação, uma pessoa completamente desprovida de princípios, desprovida de caráter.

É um filme onde o clima de tensão é constante, o clima de desespero idem, e o espectador chega a ficar de queixo caído ao ver as sucessivas ações irresponsáveis do casal com o bebê nos braços, dá vontade de gritar para pararem tudo imediatamente, vontade de pedir que alguma entidade do além interdite o casal e coloque pelo menos um pingo de juízo na cabeça daqueles jovens.

A Criança incomoda, põe o dedo numa ferida latejante, e sem nomear heróis ou algozes simplesmente escancara uma questão extremamente séria que tornou-se um grande problema social no mundo todo. Imperdível!

Fuso Horário do Amor * * *

Comédia Romântica é um gênero adorado por quase todos, principalmente mulheres. O que tem feito o gênero cair em desgraça é a recente sucessão de erros lançada nos cinemas com uma carinha bonita de chamariz e nada de conteúdo a sustentar a trama, resultando em uma dúzia (ou muito mais) de filmes iguais, previsíveis, chatos e recheados de clichês. Talvez por isso "Fuso Horário do Amor" (Decaláge Horaire) tenha sido pra mim uma grata surpresa.

Rose (Juliette Binoche) é uma espalhafatosa cabelereira-manicure-esteticista que, embora já tenha atingido a marca dos 30 anos há algum tempo, ainda não alcançou o mínimo de equilíbrio em sua vida pessoal. Aparentemente decidida a mudar sua própria história de vida, ela decide embarcar numa viagem para o México, onde pretende recomeçar sua vida e alcançar a tão sonhada paz de espírito (e, quem sabe, encontrar sua alma gêmea).

Félix (Jean Reno) é um quarentão que também parece perdido na vida, e apesar de ter alcançado algum sucesso profissional como chef de cozinha, não tem a mesma competência para administrar os conflitos de sua vida pessoal, sendo totalmente refém de seus sentimentos reprimidos.

Ela está no Aeroporto Internacional de Paris aguardando seu vôo para o México. Ele está no meso local aguardando seu vôo para a Alemanha, onde será realizado o funeral de sua quase ex-sogra, e ambos cruzam-se quase que acidentalmente no meio do caos que se torna o Aeroporto diante de uma greve geral que cancela temporariamente todos os vôos.

Atraem-se mutuamente, de uma maneira pouco romântica e bastante divertida, e por conta do ócio durante a espera da regularização dos vôos, acabam travando um diálogo preliminar que os aproximará e os afastará, não sem antes provocar reflexão, auto-conhecimento e novas descobertas a respeito deles mesmos - e do amor - por parte de ambos.

Por este resuminho aí acima, pode parecer que Fuso Horário do Amor é mais uma comédia romântica previsível, mas garanto que não é. Tudo bem, há a exploração de um ou outro clichê típico do gênero, mas nada que comprometa a obra como um todo.

Na verdade, o grande diferencial deste filme é que seus protagonistas não são apenas uns rostinhos bonitinhos adoráveis, pelo contrário: são pessoas mais velhas que o normal em filmes do gênero, e as personagens são bem construídas, sem apelar para o estereótipo do quarentão amargurado ou da trintona desesperada por um relacionamento.

É um filme sensível, delicado, respeitoso e, porque não dizer, otimista. E, lógico, muito divertido. Nada extraordinário, mas também nada desprezível. Para o gênero, eu diria que é um filme "na média", agradável de se ver, leve, com atuações deliciosas da dupla bastante competente Juliete Binoche - Jean Reno, e o cenário mais perfeito possível para qualquer romance - A Cidade Luz.

Prova de Fogo * *

Campeonato de soletração está em moda por aqui desde que o programa global "Caldeirão do Huck" lançou o quadro - que está atualmente na segunda edição - no ano passado. Mas ao assistir o filme "Prova de Fogo" (título original "Akeelah and the Bee), vemos que esse "esporte" é moda nos EUA há algum tempo, havendo inclusive um campeonato nacional de tamanha notoriedade que é transmitido pelos canais esportivos locais.

O filme mostra a saga da adorável Akeelah (Keke Palmer) em busca da vitória no Campeonato Nacional de Soletração. Ela é uma pré-adolescente negra, que vive numa família desestruturada emocionalmente após a morte do pai, estuda numa escola pública precária no subúrbio de Los Angeles e tem de enfrentar a hostilidade de alguns colegas de escola que a agridem por ser a CDF da turma. Sua notável inteligência especialmente com as palavras logo é percebida pela professora, e o diretor da escola vê na garota uma oportunidade de atrair investimentos e melhorias no ensino da instituição. Resolve então apostar no talento de Akeelah, que a princípio reluta diante da idéia de participar do concurso, mas logo acaba cedendo e mergulha de cabeça na preparação para atingir seu objetivo.

Ela é treinada pelo por um notável Professor Universitário (Laurence Fishburne), o primeiro negro a vencer um concurso nacional de soletração há muitos anos, um homem extremamente inteligente mas igualmente amargurado pela perda da família em uma tragédia. Obviamente não demora para que ambos encontrem uma afinidade que vai além do objetivo da competição, e os motivos pessoais acabam sendo mais importantes do que qualquer outro em busca da vitória.

"Prova de Fogo" é um filme exatamente no estilo "sessão da tarde", recheado de clichês e de qualidade bem razoável. Vários pontos já exaustivamente abordados em outros filmes são aqui novamente explorados, como a inclusão racial por meio do esporte (no caso a soletração), a redenção de alguém amargurado que reencontra a capacidade de amar, a superação da carência material e moral, enfim, uma série de assuntos que são quase invariavelmente fadados à mesmice,

Entretanto, não é um filme totalmente descartável. Apesar de toda a previsibilidade já mencionada, é um filme delicado, leve, e mesmo clichê, não deixa de ser uma lição de vida, uma lição de que a dedicação é às vezes a única arma que temos pra alcançar nossos objetivos nesse mundo selvagem onde os fracos são oprimidos o tempo todo, uma lição de amizade, de caráter, de amor ao próximo e de amor próprio.

Assisti o filme com meu filho de 7 anos. Ele é doido por soletração desde que viu o quadro pela primeira vez na TV, adora soletrar e (acreditem!) lê o dicionário para aprender novas palavras. Lógico que ele adorou o filme. Mas o que achei mais legal mesmo foi que quando terminou, ele imediatamente me disse: "Puxa, a Akeelah conseguiu porque ela estudou muito, então se eu estudar muito também posso conseguir, né, mãe?".

Já é uma grande lição!!!

Crimes em Wonderland * * * *

Particularmente, gosto muito de filmes baseados em fatos reais, mais precisamente filmes policiais baseados em fatos reais... É um gosto meio mórbido, eu sei, mas dou o braço a torcer e admito esse meu lado meio trash... E Crimes em Wonderland é um dos mais genuínos exemplos de um bom filme do gênero, tanto que o reassisti por esses dias com o mesmo interesse que assisti da primeira vez.

John Holmes (Val Kilmer) foi um lendário ator pornô que ficou famoso nos anos 70 por conta de seus "dotes avantajados", mas chegou ao fundo do poço ao tornar-se totalmente dependente de drogas pesadas. Vivia à margem da sociedade, frequentando o submundo dos inferninhos de Los Angeles, onde drogas eram traficadas e consumidas indiscriminadamente. Assim como a grande maioria - senão todos - os usuários de drogas, John envolveu-se cada vez mais com os "caras barra pesada", sujeitando-se a qualquer coisa para pagar suas dívidas e liberar seu crédito para consumir mais e mais e mais drogas.

E foi em nome do seu vício que ele se envolveu numa trama criminosa que resultou no famoso Crime da Rua Wonderland, uma chacina de grandes proporções que chocou a população e ganhou espaço na mídia da época justamente pela brutalidade e por envolver o famoso ator pornô como um dos principais suspeitos.

O filme mostra, através de flash-backs, a versão do crime apresentada à polícia por dois dos envolvidos - o próprio John Holmes e o único sobrevivente da gangue de Wonderland, David (Dylan McDermott). Obviamente são versões conflitantes quanto à autoria, mas o espectador não precisa se dar ao trabalho de tentar desvendar qual a versão real dos fatos (embora isso seja facilmente possível no decorrer do filme), porque a questão é esclarecida no final de uma maneira bem interessante e coerente, aliás.

Gosto particularmente de Val Kilmer nesse tipo de papel - talvez o único tipo de papel que ele interprete bem. Em Crimes em Wonderland ele está praticamente com a mesma cara do Jim Morrison (que eu adoro) também vivido por ele anos antes, e igualmente competente. A personagem, que parece estar constantemente chapada, provoca no espectador emoções conflitantes, ora parecendo um crápula miserável e manipulador capaz de qualquer atrocidade, ora parecendo um pobre coitado viciado, digno de pena.

Há ainda no elenco outros nomes de destaque como Lisa Kudrow (num papel dramático muito diferente da Phoebe que estamos acostumavos a ver em Friends), Kate Bosworth, Josh Lucas, Christina Applegate, dentre outros.

Assim, "Crimes em Wonderland" é um ótimo filme, que retrata uma história verídica chocante com bom ritmo, com a dose certa de suspense, a produção é caprichada, as atuações são convincentes e, não posso deixar de comentar, a trilha sonora é incrível! Veja se puder!!!

Curiosidade Mórbida: para quem alugar o DVD, não deixe de ver os extras (se tiver estômago). Há um extra com imagens reais da cena do crime, imagens feitas precariamente na época da chacina pelos peritos, e é algo, como vou dizer, bem "picante"...

A Rainha * * * *

Se tem um Oscar que foi merecido nos últimos anos foi aquele conferido à extraordinária Helen Mirren pelo seu papel em A Rainha. Ellen tornou-se praticamente um clone da Rainha Elizabeth II, mas a semelhança física a que chegou não é nada diante de sua estupenda atuação, merecidamente consagrada.

Filmes sobre a Rainha da Inglaterra não são originais, tampouco novidade... A figura emblemática da grande monarca, desde Elizabeth I, é sem dúvida fonte de grande inspiração para a indústria cinematográfica, o que leva consequentemente ao risco da mesmice depois de tanta exploração do tema, mas não é o que acontece com esse longa que consegue ser histórico, dramático, humano e divertido, surpreendentemente divertido.

"A Rainha" nos leva para os bastidores de uma das maiores tragédias da história britânica - a morte de Lady Di. Mas, ao contrário do que pode parecer a princípio, não é este o foco da trama, é apenas um pano de fundo para mostrar grande parte dos conflitos que se sucederam à tragédia nos bastidores do poder, é um pano de fundo para mostrar a maneira como a família real teve de lidar com pressões vindas de todos os lados para tentar fazer a coisa certa diante da morte de uma figura tão carismática, acontecimento que abalou o mundo inteiro e que colocou em xeque todos os protocolos reais, principalmente pelo fato de Diana não pertencer mais à realeza quando de sua morte.

Quando acontece a tragédia que vitimou Lady Di, o Primeiro Ministro Tony Blair (Michael Sheen, também ótimo no papel), acabara de ser eleito, e a Família Real estava passando férias no Castelo de Balmoral. De início, os modernos e populares métodos de Tony Blair confrontam-se com as tradições invocadas pela Rainha, e aí começa o conflito que poderia colocar ambos definitivamente em posições opostas - a decisão sobre como seria o funeral de Diana - mas que acabou por aliá-los da maneira mais inesperada, principalmente porque, como vemos no filme, ambos corajosamente enfrentaram seus preconceitos, assumiram suas fragilidades e incertezas e buscaram a racionalidade para fazer o necessário e encontrar a saída mais elegante para lidar com um "acontecimento sem precedentes e para o qual não havia protocolo pré-estabelecido".

O filme mistura cenas de ficção com cenas reais da época da tragédia, e a pesquisa histórica é tão cuidadosa que alguns dizem que é praticamente um documentário dos bastidores do poder, quase não dá pra perceber quais são as cenas documentais e quais são as cenas ficcionais, o que não deixa de ser um grande atrativo, já que pode ser bem interessante desvendar, ou pelo menos conhecer uma parte tão importante da história contemporânea.

Eu disse no início deste texto que A Rainha é também um filme divertido, e talvez isso soe estranho já que estamos aqui falando de um assunto tão sisudo. Acontece que de tão caprichado, o roteiro consegue, mui respeitosamente, inserir aquele humor tipicamente britânico em diálogos afiadíssimos, e é impossível não rir em algumas cenas. Aliás, há uma cena particularmente divertida, em que a Rainha, pouco antes de sair para seu passeio matinal com seus muitos cachorrinhos, consegue silenciar os animais com um simples olhar enviezado e um levantar de mão, como quem diz: "esperem", ao que os cães obedecem fielmente, colocando-se um ao lado do outro e matendo-se absolutamente silentes até que a Rainha ordene que a acompanhem. Apenas uma amostrinha do inimaginável poder - e carisma, por que não dizer - dela, "The Queen".

Um filmaço. Permita-se, e surpreenda-se!

Flores Partidas * *

Don Johnston (Bill Murray) é um solteirão convicto de mais de 50 anos de idade, que após viver o auge de uma carreira de sucesso no ramo de computadores, parece ter encontrado um novo estilo de vida, um misto de "Don Juan" com "Lobo Solitário".

Tanto que ser abandonado pela linda e jovem namorada Sherry (Julie Delpy), parece não lhe causar nenhum sofrimento. Ele está assistindo ao clássico "Don Juan" quando ela avisa que vai embora, e ele não faz nenhum esforço para que ela fique, apenas permanece diante do monitor de TV assistindo ao filme, inerte, inexpressivo, imcompreensível.

Ao receber uma carta anônima dizendo que ele tem um filho de 19 anos que saiu numa viagem em busca do pai, a monótona vida de Don ganha algum movimento. Ele acaba cedendo à pressão do seu vizinho e aparentemente único amigo Winston (Jeffrey Wright), um cara que é o seu oposto, pai de uma enorme família, falastrão e, o mais divertido da história - metido a detetive.

Don parte então numa viagem pelos EUA em busca de pistas sobre quem poderia ser a mãe do tal filho mencionado na carta. A princípio, existem 4 possibilidades, suas ex-namoradas de 20 anos atrás, e com a ajuda investigativa de Winston (que lhe recomenda levar para cada uma das mulheres um buquê de flores cor-de-rosa), Don faz um tour pelas cidades onde atualmente vivem suas ex-conquistas.

Cada encontro traz à tona um pedaço do passado. Cada encontro reserva a Don confrontos inesperados, memórias esquecidas e emoções desenterradas, de modo que num determinado momento o foco já nem está mais no filho procurado.

Flores Partidas é um filme que tinha tudo pra dar certo, e resultar numa excelente comédia dramática. O Roteiro é bem intencionado, os diálogos são afiados, inteligentes, enfim...Mas foi vítima do exagero daquilo que deveria ser seu maior charme, e acabou tornando-se um filme chato, insoso, cansativo.

Acontece que Bill Murray foi escolhido para o papel, segundo li, justamente por ter aquele jeitão peculiar que o re-consagrou recentemente em Encontros e Desencontros. Aquele jeitão de quem não está nem aí com nada, aquele jeitão de quem não sabe muito bem para que veio ao mundo, aquele jeitão de quem está constantemente deslocado em qualquer lugar, deslocado na própria vida. Essas características, sem dúvida, tornam o ator muito apropriado para esse tipo de papel mais contido, mas foi utilizada à exaustão em Flores Partidas, e cansou já na primeira meia hora.

Não dá pra ser cult o bastante ao ponto de ver graça num filme onde o protagonista estampa a mesma cara de nada o tempo todo, onde nenhuma emoção é demonstrada com o mínimo de intensidade, e, o pior, onde o final parece tão particular a quem escreveu o roteiro que o espectador fica "boiando" completamente.

É uma pena, porque poderia ser realmente um ótimo filme, mas ficou devendo, tornando-se algo apenas regular, e pouco digno do elenco de peso escalado. Dispensável.