quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Crescer Dói

Eu quero colo quando eu chorar;
Eu quero beijo quando eu sorrir;
Eu quero receber carinho quando eu me machucar;
Eu quero ganhar um sorriso quando eu falar ou fizer alguma bobagem;
Eu quero que façam festa quando eu acertar;
Eu quero que me repreendam com amor quando eu errar;
Eu quero que me façam cafuné até que eu consiga pegar no sono;
Eu quero que me deixem dormir até meu corpo desejar acordar;
Eu quero ganhar um "Bom Diiiiia" animado e sincero quando eu acordar;
Eu quero ganhar um beijo na testa quando eu resmungar;
Eu quero que meu alimento esteja pronto quando eu sentir fome;
Eu quero ser aquecida quando eu sentir frio;
Eu quero que me lembrem das coisas que eu esqueço de fazer;
Eu quero que me digam que tudo vai ficar bem quando eu estiver triste;
Eu quero ganhar um abraço de urso quando eu estiver quietinha;
Eu quero ser mimada quando eu estiver manhosa;
Eu quero ser elogiada de surpresa, sem nenhum motivo especial;
Eu quero ganhar presentes divertidos;
Eu quero ganhar balas, bombons e caramelos;
Eu quero ser levada pra passear;
Eu quero brincar de guerra de travesseiros até perder o fôlego;
Eu quero gargalhar de uma besteira qualquer;
Eu quero que cuidem de mim quando eu estiver doente;
Eu quero que se preocupem comigo;
Eu quero que se orgulhem de mim;
Eu quero ser protegida;
Eu quero ser amada incondicionalmente;
Eu quero ser a razão da vida de alguém;
Eu quero ir pra Neverland e ser criança pra sempre;
Eu quero pó de pirlimpimpim.

(e eu queria também voltar pro útero da minha mãe, onde tudo era calmo, onde eu estava protegida e aquecida, onde eu estava plenamente confortável e feliz)

CRESCER DÓI. E em alguns dias dói de uma maneira quase insuportável.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Constatação [2]

Tem gente que só vai prestar pra alguma coisa (e olhe lá), quando deixar de existir...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

#ProntoFalei!

Odeio Regras.

...

Na condição de seres humanos civilizados (?), temos que nos sujeitar a uma infinidade de regras que ditam a maneira como temos que viver. Uma interminável enciclopédia de regras morais, religiosas e comportamentais que definem tudo aquilo que podemos fazer, o que não podemos fazer, e como podemos fazer aquilo que nos é autorizado fazer. Boring!

Mas, ok. É assim o Mundo Contemporâneo, e dizem inclusive que devemos ser agradecidos aos nossos antepassados por terem construído uma sociedade civilizada que nos proporciona viver hoje de maneira minimamente organizada (??) e livre (???).

(há controvérsias, porque pra mim os conceitos de civilidade, organização e liberdade são bem diferentes de muita coisa que vemos por aí, mas o objetivo deste post não é contestar os estudos dos Sociólogos, Filósofos e afins, então, mais uma vez, ok.)

...

O que eu queria falar mesmo é que eu Odeio Regras "desnecessárias", aquelas que não constam de nenhuma lei, mas que as pessoas insistem em inventar e adotar em suas vidas e - eis o ponto - tentam impor para os outros como se fossem verdades absolutas.

Uma mania doentia de tentar sistematizar tudo, como se a vida precisasse ser limitada a um quadradinho óbvio e previsível.

E então as pessoas criam regras para usufruir de sua já limitada liberdade. Regras para namorar, Regras para transar, Regras para conversar, Regras para dançar, Regras para interagir, Regras para comer, Regras para expressar uma opinião, Regras, Regras, Regras e mais Regras, que não tem outro objetivo senão mascarar a própria falta de coragem de quebrar barreiras e expandir os horizontes.

Porque a vida não é um cercadinho, mas viver "protegido" dentro dos limites de uma série de regras é muito mais fácil e exige menos coragem, menos ousadia, menos criatividade.

Se todo mundo diz que tem que ser de tal jeito, então uma manada de "maria-vai-com-as-outras" rapidamente pula pra dentro do cercadinho e passa a agir daquela forma, sem sequer refletir sobre como poderia ser se outras formas fossem experimentadas.

Chato. Chato. Chato. Muito Chato!

Já não basta a Sociedade, a Igreja e as Leis Civis me ditarem como viver, ainda tenho que me preocupar com a maneira que os outros ACHAM que é certo viver? Até as coisas mais simples? Até como exercitar a MINHA liberdade?

Acho que é por isso que sou uma mente tão inquieta. Não há um único dia em que eu não me indigne com alguma regra idiota que tentam me impor, como se todo mundo soubesse melhor do que EU o que é melhor para a MINHA vida. E daí vem sempre aquela ladainha:

"ah, mas você precisa se encaixar",
"ah, mas agindo assim você vai chocar",
"ah, mas se você fizer isso todo mundo vai comentar",
"ah, mas você tem que se preservar",
"ah, mas você vai se machucar",
"ah, desde que o Mundo é Mundo é assim que as coisas são",
"ah, mas não é assim que se faz"

Onde é que estas regras estão escritas que eu não tô sabendo? Por que diabos eu não posso fazer as coisas que quero fazer, do jeito que quero fazer, na hora que eu quero fazer?

Não sou ingênua e sei muito bem que tudo na vida tem seu preço, inclusive e especialmente nossas escolhas, mas e se eu estiver a fim de pagar o preço, qual o problema? As pessoas não podem se recolher às suas insignificâncias e me deixar quebrar a cara sozinha? E se eu não quebrar a cara? E se essas escolhas, por mais caras que me sejam, me fizerem feliz?

Eis uma das maiores chagas da humanidade: MEDIOCRIDADE.

O mundo está infestado de gente de pensamento pequeno, limitado pelo cercadinho, gente que acha que é melhor viver de um jeito "aceitável" do que ousar, gente que no fundo é apenas covarde, e como não consegue assumir a covardia sozinho, fica querendo arrastar para o limbo qualquer um que se proponha a voar.

Gente megalomaníaca e vaidosa que acha que o mundo gira ao redor do próprio umbigo e que por isso todo mundo tem que fazer as coisas segundo as suas convicções.

Tô bem cansada de gente assim. BEM CANSADA.

No meu Mundo ideal, à exceção das regras "obrigatórias", cada um poderia viver do jeito que quisesse, e ninguém teria nada a ver com isso. É utopia, eu sei, mas não vou deixar de me indignar nunca!

Ninguém precisa aceitar nem aprovar o jeito de viver e as escolhas do outro, apenas respeitar. E é só isso que eu quero: RESPEITO. Ao que eu sou, ao que eu faço e à maneira como eu vivo. Quando eu quiser um conselho ou quiser conhecer outra opinião, eu PEÇO.

Como diria uma certa pessoa aí, "ME DEIXEM SER!"


#prontofalei

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Faça uma Lista

Eu sei, eu sei, postar letra de música é muito chato, mas... Faça uma lista!

...

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

(Com um beijo muito especial e cheio de saudade para o meu amigo Elieser Leite, que me apresentou essa música pela primeira vez, há muuuuuuitos anos...)



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Naquela Noite...

Naquela noite cinzenta de terça-feira Ela acordou surpreendentemente lúcida, apesar de sua absoluta fragilidade...

Observou com alguma dificuldade o movimento no seu quarto sempre cheio de visitas, tentando identificar os rostos e vozes que lhe rodeavam.

Fixou o olhar por alguns instantes no vazio, e sorriu para as pessoas, tentando esconder o fato de que já não mais as reconhecia.

Voltou seu olhar cansado para as filhas, que estavam como de costume aos pés do seu leito, e balbuciou baixinho: Flávia... Sílvia... Lígia... e mais uma vez sorriu.

Parou por uns instantes, novamente olhando para o vazio, e continuou, apreensiva: "Onde está a Cátia?"

Rapidamente lhe explicaram que a Cátia estava a caminho, e só então Ela se tranquilizou. Fechou os olhos e adormeceu, enquanto as filhas massageavam suavemente seu frágil corpo judiado por longos dias sobre a cama hospitalar.

Naquela mesma noite cinzenta de terça-feira, já bem tarde, Ela acordou pela última vez. Olhou satisfeita para as 4 filhas que permaneciam vigilantes ao seu redor, e num esforço descomunal esboçou um comentário orgulhoso para a enfermeira: "Essas são as minhas filhas. Estão todas aqui!".

Fixou seu olhar cansado nas filhas, observando atentamente cada rosto, como se estivesse tentando gravar a imagem feito uma fotografia dentro de si. Sorriu, e através daquele seu último e sincero sorriso disse às filhas tudo que queria dizer, transmitindo-lhes toda a sua infinita sabedoria, pela última vez.

...

Naquela noite cinzenta de 20 de Setembro de 2005 minha mãe deu seu último sorriso e seu último suspiro, e então partiu para descansar em paz depois de tanta dor e sofrimento, não sem antes se despedir de nós, as 4 filhas que ela sempre fez questão de manter unidas, as 4 filhas das quais ela tanto se orgulhava, as 4 filhas que foram a razão de toda sua existência, até seu último segundo.

Há 5 anos Ela partiu para irradiar sua luz e grandeza em algum lugar além do arco-íris... Mas continua viva dentro de nós, a mesma mãe vigilante e onipresente que sempre foi, cuidando de tudo com a mesma devoção, porque Ela é dessas:

Uma grande mãe;
Uma grande mulher;

Simplesmente a melhor que já existiu!



SAUDADES INFINITAS...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sonhos Possíveis

Desde que me entendo por gente, meu avô (pai da minha mãe) é fã do Silvio Santos. E como tal, sempre viu todos os programas e sempre acreditou piamente em tudo que fosse associado ao "Homem do Baú". Comprava o Carnê do Baú da Felicidade sonhando em ser sorteado para rodar o pião da casa própria, escrevia cartas para o programa Porta da Esperança, para o Show do Milhão, e comprava religiosamente cada uma das TeleSenas lançadas.

Aos domingos, durante os sorteios das cartas ou dos números da TeleSena, ele se sentava o mais próximo possível da TV e, munido da sua caderneta e da sua caneta bic azul, fazia mil anotações: os números sorteados, a quantidade de ganhadores, os prêmios extras do mês, etc e tal.

Era uma cena no mínimo engraçada, e a gente sempre fazia piada desse fanatismo todo do vô pelo Seu Silvio. Ele ficava bravo, e não hesitava em nos explicar - munido das estatísticas cuidadosamente apuradas no caderninho - suas grandes chances de ganhar. Falava, falava, falava. Fazia planos sobre o dia em que seria chamado para ir ao Programa, seus olhos brilhavam quando ele mencionava o momento em que estaria frente a frente com seu ídolo, e brilhavam mais ainda quando ele fazia mil planos sobre como gastaria o dinheiro ganho. Víamos todo aquele blablabla apenas como um sonho bobo, ingênuo até. Quase um devaneio.

Meu avô foi envelhecendo, ficando mais ranzinza, cheio de manias, mas nunca largou mão das suas TeleSenas e dos seus domingos grudados à frente da televisão.

Certo dia, conversando com minha mãe sobre estes assuntos, ela fez um comentário que mudou toda a minha visão daquela situação, até então apenas cômica:

"O sonho da vida do seu avô é ganhar na TeleSena e conhecer o Silvio Santos. Ele vive pra isso."

De repente caiu a minha ficha. Aquilo que pra nós era apenas um comportamento bobo e motivo de piada era, na verdade, um SONHO do meu avô. "O" SONHO, que como qualquer sonho deveria ser antes de mais nada RESPEITADO, quiçá compartilhado.

Nunca mais zombei do meu avô por causa disso. Tudo bem que ainda vemos alguma graça na situação, muito mais pela maneira metódica como ele compra, controla e guarda suas TeleSenas do que pelo sonho de ganhar propriamente dito. Mas mesmo assim, desde aquele dia, passei a respeitar muito o sonho do meu avô, porque se é um sonho dele, ora bolas, é um sonho e pronto! Cada um tem o(s) seu(s), e o dele é este.

Recentemente estive no Interior de SP visitando-o, infelizmente ele está muito doente, e numa de nossas conversas perguntei sobre as TeleSenas. Ele me disse que ainda acredita que pode ganhar, e quando não pode ele mesmo ir até a banca de jornais comprar a nova edição, pede pra que alguém o faça, e continua acompanhando os sorteios religiosamente todos os domingos, anotando ele mesmo os números, porque ele não confia em ninguém pra fazer algo tão importante!

Um sonho que atravessou anos, décadas, e que permanece com meu avô até hoje. E o que mantém esse sonho junto dele é a esperança de que um dia ele vá se realizar, é a fé que ele tem de que pode efetivamente ser sorteado ou completar os números, é a certeza que existe dentro dele de que este é um sonho possível, independentemente do que os outros pensem. Por isso ele persevera e faz o que está ao seu alcance enquanto pode.

E quem sou eu para zombar do sonho do meu avô? Quem sou eu para dizer que o sonho dele é bobo, não é possível? Quem sou eu para dizer pra ele desistir e parar de gastar dinheiro com TeleSenas, se este é o caminho que ele encontrou para buscar a realização???

...

Todos temos nossos sonhos. E se os temos, por mais absurdos que eles possam parecer, é porque existe em algum lugar dentro da nossa alma a certeza de que eles são possíveis. Então os alimentamos, e buscamos à nossa maneira o caminho para concretizá-los.

Mais do que sonhar, temos um prazer inexplicável em compartilhar nossos sonhos, em falar sobre eles, em dar asas à imaginação e nos imaginar no futuro, quando tudo se tornar real.

Qual seria a graça de realizar um grande sonho e não poder dividir pelo menos a felicidade daquela realização com alguém? 10 entre 10 pessoas que sonham em ganhar na MegaSena, por exemplo, começam suas listas sobre "o que vou fazer com meu milhão" relacionando coisas como "ajudar a família", "comprar um casa para não sei quem", e por aí vai.

A grandeza dos sonhos - dos mais simples aos mais extravagantes - não comporta egoísmo. A dimensão de uma realização está diretamente vinculada à expectativa do prazer de compartilhar os resultados.

E então dividimos nossos sonhos com as pessoas em quem confiamos. Despimo-nos dos nossos pudores e abrimos nossos corações para - sem medo de fazer papel de bobos - externar nossos maiores anseios, esperando encontrar no outro aquela mão amiga que vai nos apoiar e quem sabe até ajudar - ainda que esta ajuda seja apenas uma palavra de otimismo - a seguirmos na nossa busca.

O problema é que da mesma forma que a grandeza de um sonho não comporta egoísmo, a pequeneza do ser humano é essencialmente egoísta, e é aí que o caldo entorna.

Porque as pessoas estão ocupadas demais sonhando seus próprios sonhos para darem atenção aos sonhos alheios. Não estão nem aí para os sonhos que não são delas, e tendem a diminuir o valor do que é importante para o outro, muitas vezes até ridicularizando o sonho como se fosse algo totalmente fora de propósito.

Frustrante!

Você divide um sonho com alguém especial e este alguém não dá a menor atenção àquilo que é tão importante pra você. Você espera um apoio - ainda que velado - ao seu grande anseio, e a outra pessoa sequer toma conhecimento do quanto aquilo significa na sua vida. Não se envolve, não se empolga, não acredita. Tira do sonhador o prazer de compartilhar o sonho, tudo porque não consegue ver importância em nada que não lhe diga respeito diretamente.

Como observadora da vida alheia (e da minha própria) há anos e anos, posso dizer que isso sempre foi um comportamento que me saltou aos olhos de uma maneira muito lamentável. É impressionante como as pessoas não prestam atenção aos detalhes, é impressionante como as pessoas não se envolvem verdadeiramente umas com as outras, é assustador constatar que as pessoas são capazes de manter um relacionamento por meses, anos, décadas, sem nunca conhecer verdadeiramente quem está do outro lado.

Porque - e era aí que eu queria chegar - você só conhece verdadeiramente alguém quando conhece também os seus sonhos. E em qualquer relacionamento - familiar, amoroso, de amizade - isso faz toda a diferença!

Compartilhar uma vida é muito mais que compartilhar o cotidiano e fazer coisas juntos. Compartilhar uma vida é, antes de mais nada, compartilhar sonhos.

Sonhos grandiosos, Sonhos bobos, Sonhos possíveis, Sonhos impossíveis. Se é o Sonho de alguém, há que ser respeitado. Se é o sonho de alguém especial, então, há que ser também compartilhado!

Como já cantava Raul, "Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só; Mas Sonho que se sonha junto, é realidade."

sábado, 11 de setembro de 2010

O lado brilhante da Vida

"A Felicidade só é Real quando compartilhada"
(Chris McCandless / Alexander Supertramp)

A frase acima, que ouvi pela primeira vez no filme "Na Natureza Selvagem", virou um mantra pra mim. Considero-a de uma sabedoria ímpar, e de aplicação fundamental à vida.

É muito difícil começar este post sem parecer piegas ou escrever frases de efeito que soem como autoajuda barata, e talvez eu não consiga fugir dos clichês, mas algumas coisas, por mais óbvias que sejam, precisam ser ditas de vez em quando, já que o óbvio, de tão óbvio, muitas vezes acaba sendo negligenciado.

Desde que perdi minha mãe tenho tentado tornar a minha vida mais leve. O sentido de tudo mudou desde aquele fatídico dia 20 de setembro de 2005, e a grande lição que ficou é que - olha o clichê aí! - a vida é muito curta, e podemos não ter tempo de aproveitá-la se deixarmos toda a diversão e todo o prazer sempre para amanhã.

Isso significa, dentre outras coisas, tentar manter o alto astral, tentar manter o bom humor, e rir muito, sempre, inclusive e especialmente das minhas próprias mazelas.

A vida é dura, todo mundo já sabe. Os problemas não dão trégua, a Lei de Murphy é implacável, e justamente por isso na maioria das vezes, quando tudo vai mal, o melhor remédio - senão o único - é o bom e velho "levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima", não sem antes soltar uma sonora gargalhada.

Sim, o Bom Humor é essencial à vida. ESSENCIAL mesmo! Não consigo conceber uma vida "vivível" se levarmos tudo a ferro e fogo, se nos entregarmos a todos os sofrimentos, se deixarmos que o perigosíssimo mau humor nos domine.


Esses dias postei uma frase no twitter que resume bem o que quero dizer:

"O Bom Humor é contagioso, e o Mau Humor é muito perigoso. Todo Mundo tem seus dias difíceis, mas escolher a Amargura como estilo de vida é desperdício!"


De maneira um pouco mais "poética", diz Marla de Queiroz:

"A mesma articulação que tenho para reclamar, tenho para agradecer; E se posso me adornar com alegria, não é a tristeza que eu vou tecer."


O que me espanta e acabou me inspirando a escrever este post é ver como certas pessoas ESCOLHEM viver uma vida pesada, mau humorada, amargurada. É ver como tanta gente bacana se torna totalmente dispensável ao optar por vestir a burca do mau humor sem esboçar a menor resitência.

Essas pessoas - que estão por todos os lados - acabam por exercer um poder altamente nocivo a quem os cerca, vitimizam-se de qualquer situação que lhes tire da zona de conforto, e acabam por direcionar sua mira - consciente ou inconscientemente - a toda e qualquer pessoa que esboce o menor sinal de felicidade.

Vejam que não estou falando apenas do bom e do mau humor óbvios, e nem quero subestimar a inteligência de quem me lê explicando isso. Há vários tipos de bom humor, do pastelão ao sarcasmo, do escracho à ironia. Eu mesma adoro todos os gêneros, e muitas vezes tenho explosões de ira que no fundo são apenas uma forma de fazer piada comigo mesma, em geral acabo me divertindo até mais que os outros, principalmente pela sensação gostosa de descobrir que consegui transformar um pequeno caos numa afiada "auto-piada", do tipo "isso só acontece comigo!"

A diferença entre quem se utiliza do sarcasmo, ironia e afins para o amargurado crônico está justamente na capacidade de superação do problema, na capacidade de virar o disco e seguir adiante, na capacidade de deixar de lado as lamentações e seguir leve, divertindo-se com o caótico exercício que é viver.

Alegria incomoda muita gente. Se for uma alegria sem motivo aparente então - aquela típica das pessoas leves e bem humoradas que escolhem começar o dia bem, que escolhem rir a chorar - pode até mesmo despertar o ódio dos mau humorados doentes; para eles não basta a própria amargura: há que se contagiar o mundo para obter algum conformismo.

Deprimente. Enganam-se achando que os alegres tem uma vida melhor, mas muitas vezes é exatamente o contrário, o que muda é o ponto de vista, o que muda é a leveza da alma.

Repito-me: Todos temos problemas, a vida não é fácil pra (quase) ninguém, e até temos direito aos nossos dias de fúria esporadicamente, ninguém é de ferro e extravasar o mau humor às vezes é necessário, mas há que se ter cuidado para que isso não vire um estilo de vida, sob pena de nos tornarmos pessoas dispensáveis, desagradáveis, indesejáveis.

Não há coisa melhor do que compartilhar da companhia de alguém que saber rir e fazer rir, até das bobeiras mais bobas. Não há coisa melhor do que deixar-se contagiar pelo alto astral de alguém que irradia luz, leveza, espirituosidade. Não há coisa melhor do que compartilhar a felicidade, porque ela sim, como dizia Chris McCandless, só é real se for compartilhada.

Apesar de todas as mazelas, há sempre um lado brilhante em qualquer situação. Por mais difícil que pareça, há. Às vezes é preciso um certo esforço pra mudar o ângulo e conseguir enxergar a situação sob um ponto de vista diferente, mas procurando com empenho a gente sempre encontra. É tudo uma questão de escolha.

A vida é uma grande piada, daquelas bem escrachadas, às vezes até de mau gosto. Restam-nos duas opções: Rir e manter a pele boa ou Chorar e ficar cheio de rugas.

Quem não consegue enxergar a graça perde toda a diversão.

Prefiro ser uma "boba-alegre" do que uma "esperta-triste". Prefiro rir de mim mesma do que chorar e fazer com que os outros tenham pena de mim. Prefiro ser leve e sorridente do que pesada e carrancuda. Não estou nessa vida a passeio; se posso me divertir, então é isso que vou fazer!

E quando chegar o fim, o meu epitáfio será:

"Vim, vivi e me diverti"

Always look on the bright side of life!



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Para virar um livro: A História da Caneta

Mais uma repostagem para enriquecer a campanha para o 2o. Concurso BlogBooks (para votar no Blog Dona Farta, clique aqui).

"A História da Caneta". (publicada originalmente em 13/02/2008)

Outro dia eu estava assitindo um filme, e numa cena aparecia um cara escrevendo com uma caneta tipo "kilométrica" (vocês lembram dessa caneta?)... Nunca mais vi uma dessas na vida, acho que nem fabricam mais... Mas na hora me bateu uma nostalgia, e eu comecei a lembrar de como eu curtia material escolar na minha época de estudante...

Todo começo de ano era um deleite: material novinho, cadernos impecáveis, canetas novas, estojo novo, e eu, assim como a maioria das meninas, curtia muito começar o ano na escola, adorava arrumar a mochila, coisas assim...

Só que eu fui estudante em outros tempos, lá nos idos dos anos 80, quando não havia essa avalanche de opções de material escolar no mercado como tem hoje em dia... Não havia tantos cadernos de personagens, trocentos tipos de lápis de cor, mochila de rodinha e afins, coisas que hoje, mãe que sou, sei que custam uma fortuna! E isso era bom, porque diminuía o abismo social entre estudantes, já que todo mundo tinha coisas parecidas, lápis de cor era apenas lápis de cor, tudo igual, e assim por diante.

Na época da História da Caneta, eu devia ter uns 12 anos, estava na 6ª série, se não me engano, e era muito pobre, portanto meu material escolar era o básico do básico: lápis preto nº 2, lápis de cor de 1 dúzia, caneta Bic, e outros itens essenciais. Como toda menina, eu adorava "florear" meus cadernos e trabalhos com muitas cores, escrevia o título da matéria de vermelho, sublinhava, fazia frufruzinhos em volta, coisas assim... Não tinha canetinhas hidrográficas, porque custavam caro, mas eu me virava bem com minhas duas canetas Bic - uma vermelha e uma azul, e meus cadernos eram impecáveis.

Eis que um dia aparece uma amiga de classe - a Simone - com uma novidade que me deixou extasiada! Ela tinha ganhado da mãe uma Caneta Bic 4 Cores, que era lançamento, e quando eu vi aquilo fiquei paralizada! Como poderia haver uma caneta que tivesse 4 opções de cores pra se escrever? Tinha até tinta verde! Isso era uma maravilha!

Essa caneta custava uma fortuna pra época, era uma extravagância que poucas mães poderiam fazer em favor dos filhos, e lembro que da nossa classe a Simone era a única que tinha uma "Bic 4 Cores". Vivia se exibindo com seus cadernos e trabalhos escritos em 4 cores, e eu morrrrrrriiiiiaaaaa de inveja!

Um belo dia criei coragem e fui falar com a Simone. Queria passar umas lições à limpo em casa, e pensei que meu caderno ficaria lindo com tantas cores pra eu destacar os títulos das matérias. Pedi a caneta emprestada, falei que seria só por um dia, que eu levaria pra casa, usaria, e devolveria no dia seguinte. Ela titubeou um pouco, disse que sua mãe não gostaria de saber que ela tinha emprestado a caneta, mas como era "boazinha", acabou me emprestando...

Naquele dia eu voei pra casa, porque queria aproveitar muuuuuuuuito a caneta! Já no ônibus, voltando, ficava segurando a Bic 4 Cores na mão e apertando os botõezinhos que a faziam mudar de cor... o "tic tic" da mudança das cargas lá dentro da caneta me deixava maravilhada (gente, juro que eu não era retardada, mas era novidade, então eu ficava maravilhada mesmo!).

Só que tem um pequeno detalhe que eu preciso confessar: Além de ser uma "pessoa que cai" (isso vocês já sabem!), eu também sempre fui, e sou até hoje, uma "pessoa que quebra as coisas"... Não sei o que acontece comigo, mas a vida inteira, era só eu pegar alguma coisa emprestada com alguém e, batata! O negócio quebrava! Já passei muitos apuros por conta disso!

Nem preciso dizer que não foi diferente com a Bic 4 Cores da Simone, né? Eu estava lá em casa, passando o caderno à limpo, escrevia 2 linhas e me distraía brincando de mudar as cores da caneta, "tic tic" pra cá, "tic tic" pra lá, e daqui a pouco voa uma molinha que saiu não sei de onde... Assustei, mexi na caneta e vi que ela não estava mais funcionando, tinha travado em uma cor... Entrei em pânico, corri atrás da molinha, tentei descobrir de onde ela tinha se soltado, abri a caneta (girando-a ao meio), desmontei tudo, e aí que o negócio ficou pior, porque eu sequer consegui fechar a caneta novamente com todas as cargas dentro... Mexi em tudo que era possível tentanto consertar o mecanismo da troca de cores, mas não teve jeito... a caneta tinha mesmo quebrado!!!

Jesus Maria e José! O que eu ia fazer? Minha mãe não podia nem sonhar que eu tinha pego uma "caneta tão cara" emprestada, porque minha mãe não gostava que a gente pegasse coisas emprestadas com os outros, e se soubesse que eu tinha pego a caneta e ainda por cima quebrado, nossa... comeria meu fígado!

E agora??? Eu não tinha alternativa... teria que tentar juntar o dinheiro pra comprar uma caneta nova pra Simone, mas isso demoraria, bem... demoraria um bocado!

Eu não ganhava mesada, nunca ganhei. Eu não ganhava dinheiro para o lanche porque a escola oferecia merenda (era tão ruim!), e no máximo meu pai me dava todo dia algo tipo 20 centavos, pra eu comprar um salgadinho na barraquinha da tia que ficava na porta da escola na hora da saída!

Fiz as contas... a Bic 4 Cores devia custar, sei lá, o equivalente a uns R$ 10,00 em dinheiro atual, portanto eu teria que juntar o dinheiro de 50 dias, ou 10 semanas, pra conseguir comprar uma caneta nova pra Simone! Considerando que tinha dias em que nem os 20 centavos meu pai me dava, considerando os dias não-letivos, caramba! Eu demoraria meses pra conseguir pagar a caneta! E agora???

No dia seguinte fui falar com a Simone... antes de pronunciar a primeira palavra, claro, eu já estava chorando (porque eu sou também uma pessoa "que chora", lembram?). Entre soluços e fungadas consegui dizer pra ela que a caneta tinha quebrado, e que eu não tinha como pagar uma nova imediatamente! O que eu lembro foi que ela arregalou os olhos e disse: "Nossa, e agora? Minha mãe vai me matar!"

Ou seja, éramos duas inocentes meninas na pré-adolescência com o maior problema de nossas vidas - a caneta Bic 4 Cores! Pensem num desespero!!!

A Simone me perguntou quando eu poderia comprar uma caneta nova, eu expliquei pra ela que não podia contar pra minha mãe senão ela me engoliria viva, mas que iria juntar o dinheirinho de todo dia, e tal... Daí ela perguntou em quanto tempo eu achava que conseguiria fazer isso, e, bem... não tive coragem de dizer pra ela que demoraria meses... Dei uma enrolada, disse que tentaria uma graninha extra com meu pai, e ela ficou de tentar enrolar a mãe dela também, pra que ninguém descobrisse nossa história da caneta!

A partir desse dia, minha vida na escola se tornou um martírio... Eu acordava já pensando na desculpa que daria pra Simone pra protelar a entrega da caneta nova por mais um dia, e assim por diante... Morria de medo de ela contar o que tinha acontecido pra mãe dela, e chegava a ter pesadelos imaginando a mãe dela indo falar com a minha mãe, e minha mãe acabando comigo... nossa... vocês não têm noção de como eu sofri com essa história!

Em geral a Simone era boazinha, ficava meio brava por eu enrolar mais um dia, e mais um dia, e mais um dia, mas foi levando... às vezes ficava mais estressada e ameaçava contar tudo pra mãe dela, daí eu implorava pra que ela não fizesse isso! E mais um dia se passava...

Bom, pra encurtar a história, de algum modo consegui sensibilizar minha amiguinha, e os meses acabaram passando... eu nunca que dava conta de juntar todo o dinheiro que era preciso pra comprar a caneta, mas estava me esforçando... E naquele ano, no último dia de aula, consegui devolver a Bic 4 Cores pra Simone... Ficamos praticamente o semestre inteiro vivendo em função do sofrimento da história da caneta, e nem eu, nem ela, tivemos nossos cadernos coloridinhos pelas 4 cores!

Recentemente nos reencontramos, eu e a Simone, e demos muita risada dessa história... Hoje em dia, ainda bem!, temos condições de ter quantas Bics 4 Cores desejarmos, essa caneta, aliás, já nem é mais "grande coisa", custa bem mais barato, e eu mesma, de tão traumatizada que fiquei, tenho praticamente uma coleção... rsrs... tem a Bic 2 Cores, a Bic 3 Cores, a Bic 4 Cores e até a Bic 10 Cores!

Que saudade do tempo em que meu maior problema era ter que pagar uma caneta!