segunda-feira, 13 de julho de 2009

Involução aérea

Eu sou do tempo em que viajar de avião era uma coisa bacana. Elitizada até. Chique. Porque as passagens custavam absurdamente caro, mas as aeronaves, ah... as aeronaves... Eram aquelas geringonças enormes e tão confortáveis que a gente até se sentia importante dentro delas. Era bacana, sabe? Era realmente legal.

Mas, vocês sabem, o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa...

E é impressionante como as coisas podem ir de um extremo ao outro em apenas alguns anos. Porque se antigamente viajar de avião era um privilégio para poucos afortunados que podiam unir conforto + segurança + rapidez (nessa ordem), hoje em dia é uma tortura para muitos desafortunados que precisam deixar até dignidade do lado de fora para conseguir embarcar no minúsculo teco-teco e tentar chegar ao seu destino sem nenhum conforto, em condições de segurança nebulosas, e nem sempre de maneira rápida, já que os horários marcados dos voos se tornaram meras informações referenciais que não necessariamente (quase nunca, na verdade) são cumpridas.

Aí hoje eu vi essa matéria veiculada no Bom Dia Brasil (link postado no twitter pelo @jlpedroso), e tive que rir. Porque, né? Deve ser uma piada, disfarçada de reportagem. Só pode! (estou me referindo ao conteúdo, e não à matéria em si... só pra esclarecer).

Porque quando a notícia é que a ANAC precisou fazer uma pesquisa pra concluir que os passageiros sofrem um certo desconforto por conta do mínimo espaço entre as poltronas, eu só posso concluir que eles estão tirando sarro da cara de todos nós.

Ou então todas as pessoas que trabalham na ANAC são alguma espécie de gnomos ou duendes ou anões que não medem mais do que 1 metro de altura e não pesam mais do que 30 quilos, única chance de eles nunca terem percebido antes que os aviões são latas de sardinha onde as pessoas viajam esmagadas e grudadas umas nas outras praticamente sem respirar.

Em que mundo essas pessoas vivem, que precisaram fazer uma pesquisa para tirar essas conclusões?

Eu queria muito que o Sr. Presidente da ANAC viajasse numa poltrona do meio num voo lotado de 4 horas de duração num aviãozinho furreca desses da nova Varig ou Gol e depois me dissesse se ele realmente acha que era necessária uma pesquisa pra concluir o óbvio.

Mas isso nem é o pior. O pior é que, de posse do resultado da tal pesquisa, qual é a sugestão da ANAC? Aumentar o tamanho das poltronas e reduzir o número de assentos, tornando a viagem minimamente confortável? NÃÃÃÃO!!! A sugestão é de obrigar as Cias. Aéreas a promover sessões de exercícios com os passageiros de voos de mais de 4 horas de duração, para evitar, sei lá, uma gangrena? Será que a ideia dele é que os comissários façam sessões de alongamento com os passageiros? Dentro dos aviões? E quer dizer então que agora os comissários vão precisar estudar educação física e os voos serão transformados em sessões de academia, onde se desafiará as leis da física tentando fazer 2 corpos ocupar um mesmo lugar no espaço???

Sabe, eu não teria acreditado nisso se me contassem. Mas vi o vídeo da matéria, né, e ouvi lá da boca do próprio homem. LOUCO. Absolutamente SEM NOÇÃO. Sugere isso a pessoas que já passam pela humilhação de ter que se esfregar umas nas outras para conseguir chegar à sua poltrona, como se todo o constrangimento do mundo já não fosse suficiente.

Eu sei que quem tem grana e vai viajar para lugares mais distantes pode se valer da 1a. classe e garantir algum glamour, mas e para voos de ponte aérea feitos quase que exclusivamente por aeronaves minúsculas? Eu sempre vejo altos executivos de empresas importantes se espremendo junto à ralé na ponte aérea... acho que nem eles conseguem se livrar disso.

Eu mesma viajo com uma frequência regular principalmente a trabalho. Tudo bem que não sou uma pessoa exatamente do tamanho padrão sugerido pela ANAC (leia-se anoréxica), e mesmo sendo Farta, estou longe de qualquer extremo, sou uma "quase magra", como disseram outro dia.

E sou mulher. E sou brasileira. E tenho curvas (bem) fartas, e essas minhas curvas (leia-se bunda, quadril, coxas) simplesmente não cabem nos 45cm do assento da lata de sardinha chamada avião. Não cabe. Não entra. Não encaixa. Não serve. A cada viagem eu desafio a física e dou um jeito de me espremer no assento, às custas de muito desconforto, dor e até marcas roxas que às vezes aparecem nas regiões espremidas. E isso, repito, porque eu sou apenas Farta, sem chegar ao extremo de ser realmente obesa.

Aí eu fico pensando o que acontece com as pessoas que são maiores do que eu, e elas não são poucas. Fico pensando na pane que pode se instalar se uma pessoa grande, acomodada na janela de alguma das fileiras tiver um pirepaque no meio do voo e precisar se levantar rapidamente. É impossível. Há uma engenharia elaborada instintivamente pelos passageiros a cada embarque / desembarque que permite que todos se acomodem de maneira razoavelmente organizada, mas isso requer muito constrangimento e muito senta-levanta-senta-levanta. E se houver uma emergência, bem... a coisa toda pode sair do controle.

(me ocorreu agora, como será que a mulher melancia viaja? taí uma pergunta que eu faria pra ela se a encontrasse... porque, né? o tamanho da pessoa... impossível que caiba nos 45 cm. da poltrona padrão, impossível! eu não caibo... como será que ela faz? compra 2 passagens? viaja em pé? senta no colo do comandante? se alguém souber, deixe a resposta aí nos coments, que dependendo da ideia posso adotar também)

Eu, confesso pra vocês, tenho um certo pânico desse aperto todo. Sou meio claustrofóbica. E sempre que faço check-in minto para o funcionário que tenho síndrome do pânico e por isso preciso viajar na fileira 1. Na maioria das vezes a mentira cola, e eu consigo pelo menos movimentar os pés durante a viagem, já que não há outra poltrona à minha frente. Mas às vezes eles desconfiam e vem com aquela ladainha de que os assentos da fileira 1 são reservados para portadores de necessidades especiais, blablabla, e aí eu sou obrigada a dar um pequeno piti do tipo "Ok, mas se eu tiver um surto durante o voo, posso colocar em risco a integridade física dos outros passageiros, e não sei se vocês querem isso. Depois não digam que não avisei".

Infalível! É claro que se aparecer alguém com uma necessidade especial real eu cedo o lugar, mas até hoje nunca aconteceu. Estatisticamente, aliás, é bem improvável que as 6 poltronas da fileira 1 tenham destino a pessoas nessas condições, então garanto logo a minha necessidade especial de ter ar para respirar e espaço para mexer os pés. É o mínimo.

Não vou nem comentar o serviço de bordo porque isso alongaria demais o post, vou apenas dizer que já estou com saudade da tão falada barrinha de cereias, e quando uma barrinha de cereais deixa saudade, bem... por aí vocês tiram suas conclusões. Quando eles te oferecem em um avião um pacotinho de bolacha murcha de uma marca que você nunca ouviu falar e que tem gosto de detergente, talvez seja hora de voltar a viajar de ônibus e recuperar um mínimo de dignidade, porque nos Aeroportos dignidade tem, mas acabou.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá Flávia..q maravilha de post..
adorei!!!
É por isso q te admiro viu..vc é
corajosa..fazendo justiça..e isso
é mto lindo..temos q fazer valer à pena nossa existência..e ela vale
mto com certeza!!!

Enorme abraço com carinho..
Carmem

kely disse...

Adorei...realmente esses acentos estão muito apertadinhos agora vou adotar sua tática pra ter um poiquinho mais de espaço rsrsrs
bjussssssss

Sissi disse...

Bom, eu descobri que posso viajar na fileira da saída de emergência, que tem uma boa distância da próxima poltrona, sem brigar pela 1a fileira, mas o incômodo é que o assento não é reclinável. Porém será agradabilíssimo a partir de agora, invés de viajar em paz, ter que me incomodar com uma irritantezinha de uma aeromoça me chamando para fazer AERÓbica, literalmente falando. Nem mesmo direito à gangrena eu tenho mais... só porque a ANAC não quer diminuir o lucro das cias aéreas.