domingo, 16 de março de 2008

A Distância Entre Nós

Todas as manhãs na Bombaim contemporânea, Bhima, uma empregada doméstica, deixa seu barraco na favela para cuidar da casa de Serabai Dubash. Ali, Bhima esfrega o chão de um lugar em que será sempre uma estranha, limpa os estofados em que jamais poderá se sentar e lava a louça que não pode usar. No entanto, ainda que apartadas pela classe social e pelo sangue, Bhima e Serabai estão unidas pelos laços femininos e pelas experiências de vida que compartilham.
Sera é uma dona de casa de classe média alta cuja opulência da vida material esconde a vergonha e a desilusão de seu casamento violento. Viúva, ela se dedica à família e gasta quase todo o seu tempo cuidando da filha grávida Dinaz, uma pessoa dócil e excelente profissional, e de Viraf, seu atraente e bem-sucedido genro.
Bhima, analfabeta resignada, endurecida por uma vida de sofrimento e perdas, trabalha na casa de Sera há mais de vinte anos. Amaldiçoada pelo destino, ela sacrifica tudo pela bela e teimosa Maya, sua neta, uma universitária cuja educação - bancada pela patroa - lhes possibilitará deixar seu bairro pobre.

(trecho da "orelha" do livro)

Estou ainda consideravelmente estarrecida com essa história comovente e arrebatadora. Uma história que inicialmente parece muito distante, até pelo cenário em que se passa - a Índia contemporânea - mas que na realidade é muito mais próxima de todos nós do que podemos imaginar... Mais do que uma visão da sociedade oriental, é uma perspicaz análise do mundo contemporâneo, é uma história que poderia se passar na Índia ou no Brasil, na Arábia Saudita ou nos Estados Unidos.

Este romance da Jornalista Thrity Umrigar, que eu li em poucos dias, acaba sendo uma enorme bofetada na cara de quem o lê, porque coloca o dedo naquela que talvez seja a maior ferida da humanidade - a eterna distância que só parece aumentar entre os mundos que ao mesmo tempo parecem ter fronteiras invisíveis, mas que têm na verdade uma enorme muralha que talvez nunca possa ser derrubada, a enorme distância que existe entre o rico e o pobre, o enorme abismo social que divide o Mundo apesar de sermos todos seres humanos...

Um dos maiores méritos do livro é não glorificar a pobreza em detrimento da riqueza e vice-versa, é não vitimar os miseráveis nem condenar os mais abastados por sua condição, o que seria uma saída bem mais fácil para um romance. Ambas as protagonistas dessa dolorosa história são cheias de virtudes da mesma forma que são falíveis a toda sorte de erros ou "equívocos" por conta das circunstâncias da vida. Por mais que Sera e Bhima sejam, de certa forma, amigas, a verdade é que jamais isso será admitido, porque antes disso elas são patroa e empregada, e a vida não permite que essa barreira seja transposta.

Ambas são vítimas, antes de qualquer outra coisa, de suas origens e da ignorância dos mundos em que foram criadas, dos seus destinos trágicos e das escolhas que fizeram no passado. Ambas são vítimas das grandes perdas e encontram suas maneiras caladas de lidar com essa avalanche de emoções e frustrações, sem se dar conta do tamanho do reflexo disso tudo no mundo ao seu redor, e nas pessoas que mais amam.

Sem dúvida foi um livro surpreendente pra mim, e como citado na contra-capa, "eu não conseguia parar de lê-lo, e não era a mesma quando alcancei a última página"... A narrativa é invadida por uma melancolia às vezes sufocante, mas que sutilmente consegue dar o exato tom da realidade dessas duas vidas ao mesmo tempo tão abençoadas e tão desgraçadas.

Há um final corajoso, aberto a interpretações variadas, e achei essa uma outra grande "sacada" da escritora, porque depois de muito pensar concluí que a interpretação que podemos dar ao final da história diz muito sobre a nossa própria posição diante dessa problemática, o que pode ser um pouco perturbador.

De qualquer forma, é um livro importante, envolvente e emocionante enquanto romance, mas também muito corajoso enquanto crítica social. É uma leitura agradável, apesar de melancólica, e sem sombra de dúvida eu recomendo!!!

4 comentários:

Noivinha Pâm disse...

Adoro ler amiga, o que me falta são boas sugestões viu...pq eu tenho preguiça de ir atrás...huahua...Mas já anotei sua dica de leitura...assim que possível vou ler !!

Obrigada !! Dona Farta tb é cultura...hehehe (como sou tonta !!haha)

Ana disse...

Eu já li o livrooooooooo
Puxaaaaaaaaa, em comum mesmo.
Desculpe a demora para retribuir a visita, aconteceu que eu postei em cima e nem reparei que havia outro comentário.
Foram tantas as critícas que eu desisti do post.
rsrsrs
Um beijo.
Seu blog é lindo!
Cuide-se!

Nath disse...

Oi Flávia
Sou a NaTh da comu Casamento Troca de idéias e a primeira vez q passo aqui, adorei seu blog e já add nos meus favoritos.
Bjss

Lizzie disse...

Flavia,em primeiro lugar, quero pedir sinceras desculpas pelo sumiço. Tive alguns probleminhas na hospedagem do blog e só há pouco tempo consegui resolver por completo. Agora [graças aos céus!] está tudo bem, e tudo em ordem.
Fiquei super feliz em ler seu comentário e ver que ficaste contente em ver meus gostos literários, literatura é a minha paixão! :)
Também venho aqui p'ra convidar-te a ir lá no blog, comemorar comigo as 112.000 visitas, das quais fizeste parte e sou muito grata.
Passa lá pra comer um bolinho comigo, ok? Te espero.

Beijocas.
www.lizziepohlmann.com