quarta-feira, 5 de março de 2008

À favor das pesquisas com Células-Tronco Embrionárias

O Brasil é conhecido mundialmente como "o país das mulheres bonitas", "o país do Carnaval", "o país do Futebol", e mais um monte de outros adjetivos que, dependendo do ponto de vista, podem ser considerados bem pouco lisonjeiros.

Preciso dizer que, em certas circunstâncias, o Brasil também pode ser facilmente taxado de "país da hipocrisia". Não que isso seja uma exclusividade nossa, vemos esse tipo de comportamento hipócrita das pessoas o tempo todo também em outros países e inclusive nos de Primeiro Mundo, mas isso não torna a questão menos repugnante do que é.

Obviamente, não quero generalizar nem parecer grosseira xingando nosso próprio povo disso ou daquilo, mas basta analisarmos com frieza o comportamento dos brasileiros quando alguma questão social polêmica é lançada ao debate. Não é raro nos depararmos com pessoas das mais variadas classes sociais cheias de razão ao defender seus pontos de vista muitas vezes com argumentos rasos e contraditórios.

Só para exemplificar:

Todo mundo diz que precisamos nos preocupar com o desenvolvimento sustentável, com a preservação ambiental e coisas do tipo - isso é "politicamente correto" - mas o que mais vemos são indústrias multimilionárias poluindo o meio ambiente sem o menor pudor, madeireiras desmatando indiscriminadamente as nossas florestas, da mesma forma que vemos as classes mais miseráveis jogando todo tipo de entulho nos rios, nas ruas, na natureza;

Todo mundo diz que precisamos educar nossas crianças pra construir um futuro melhor, mas o que mais vemos são pessoas das classes mais abastadas que não têm um pingo de educação, acham que porque estão pagando podem fazer o que bem entender na escola, na faculdade, na vida social, podem desrespeitar qualquer regra ou lei porque seu poder e seu dinheiro podem comprar até mesmo sua impunidade, da mesma forma que vemos as classes mais miseráveis destruírem os pouquíssimos recursos que lhes são oferecidos pelo poder público - escolas pixadas, depredadas, vandalizadas, praças públicas destruídas, e tantas outras coisas lastimáveis.

Analisando apenas esses dois exemplos acima, destacados dentre tantos outros, fica claro que no Brasil todo mundo gosta de falar o que é politicamente correto, gosta de fazer tipo, levantar bandeiras e coisas assim, mas no fundo são poucos aqueles que realmente levam uma vida de acordo com esses princípios, são poucos, muito raros na verdade, aqueles que "fazem a sua parte", e isso é no mínimo lamentável.

Pois bem. Hoje estamos diante de mais um debate polêmico e extremamente importante para o futuro, extremamente importante para que a medicina, usando de toda a tecnologia de que dispõe atualmente, possa realizar avanços significativos em busca de tratamentos para doenças cuja cura ainda não foi descoberta, dentre outros tantos motivos científicos que não tenho cacife para explanar aqui.

Em 2005 nosso "país da hipocrisia", num gesto surpreendente, deu um enorme passo em direção ao futuro ao aprovar a "Lei da Biossegurança", que autoriza que embriões congelados há 3 anos ou mais, mediante autorização dos respectivos genitores, sejam doados para pesquisas. Na ocasião houve também muita polêmica, mas diante da vitória de uma ação coerente e importante muitas pessoas puderam comemorar o grande feito, e portadores de doenças graves cuja cura ainda não foi descoberta renovaram suas esperanças acreditando que essas pesquisas pudessem ser "a luz no fim do túnel" - e de fato tinha tudo pra ser.

E então, quando tudo parecia caminhar finalmente "pra frente", quando acreditávamos poder comemorar um avanço efetivo e um grande feito para o futuro da humanidade, eis que surge uma criatura hipócrita - mais uma - para acabar com a festa daqueles que já não têm normalmente muito motivo pra comemorar qualquer coisa, uma criatura chamada "Cláudio Fonteles" - ex-procurador-geral da República, supostamente um católico fervoroso que ao que parece coloca suas convicções religiosas à frente de qualquer coisa.

Esse "ilustre" Senhor, lá do alto de sua "sabedoria suprema", ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade objetivando derrubar a Lei da Biossegurança, fundamentando suas razões no artigo 5º da Constituição Federal, que assegura o direito de inviolabilidade à vida. Segundo os argumentos dessa corrente (Cláudio Fonteles não está sozinho), uma vez "formado" o embrião já existe vida, de modo que realizar pesquisas com estes embriões seria uma flagrante violação da vida - obviamente estou sintetizando a questão, que tem muito mais complexidade, mas o núcleo da discussão é basicamente esse.

E hoje, dia 05 de Março de 2008, a tal Ação de Inconstitucionalidade vai finalmente ser julgada pelo STF - Supremo Tribunal Federal, num colegiado de 11 Ministros. O Julgamento está marcado para as 14h00.

Para que não existam dúvidas, vou reforçar o que já disse: Não sou nenhuma autoridade no assunto, não sou cientista e entendo quase nada de Biologia ou Biomedicina ou Nanotecnologia ou qualquer outra "bio" do gênero. Meu conhecimento desse assunto é o mesmo da maioria da população, mas isso não me torna menos habilitada a expor o que penso sobre o assunto, e é isso que quero fazer aqui.

Não quero me alongar muito, mas tenho que mencionar a influência da Igreja Católica numa questão como essa. Assim como a "Santa Igreja" é contra os métodos anticoncepcionais, contra o uso da camisinha, contra o sexo antes do casamento, contra o controle da natalidade e contra o aborto - até mesmo de fetos anencéfalos ou em caso de gravidez decorrente de estupro, assim como alguns mais "radicais" afirmam que a masturbação masculina é genocídio, é a Igreja também contra as pesquisas com as células-tronco embrionárias, sempre valendo-se do argumento da "preservação suprema da vida". E não é diferente com este assunto específico - claramente há uma influência maior da Igreja que tenta conduzir todo o debate dentro de seus fundamentos.

Tanto isso é verdade que, em um debate realizado há algum tempo numa audiência pública para discussão do assunto, ao ser confrontado com uma pergunta vinda da platéia de cientistas e jornalistas acerca do assunto, Cláudio Fonteles respondeu que o interlocutor não poderia entender seus fundamentos por ser Judeu.

Mas, me respondam: Não vivemos num estado laico? Então, por que raios temos que nos curvar o tempo todo às imposições completamente irreais da Igreja, de uma Igreja que aliás nem possui mais a mesma hegemonia mundial como em séculos passados?

Vejam bem, eu não estou querendo ofender os Católicos nem agredir a Igreja, não é isso, eu respeito antes de mais nada qualquer manifestação religiosa e os dogmas em que a fé do povo foi construída, mas isso não significa que devemos nos comportar como "Maria vai com as outras" o tempo todo só porque "A Igreja mandou".

Acontece que é muito mais confortável esconder-se atrás do argumento religioso e da definição romanceada do que é vida, de como/quando ela começa. É mais confortável porque poucas pessoas ousam confrontar qualquer argumento quando ele está embasado em princípios religiosos, e porque somos todos hipócritas, afinal.

Sei que os pontos de vista sobre "quando começa de fato uma vida" são controversos, e cada um tem o direito de acreditar no que quiser. Sei que existem definições científicas, definições jurídicas, definições religiosas e até mesmo definições românticas para essa questão, mas eu acho que não é este o ponto crucial da discussão, e acho que manter todas as atenções nesse argumento exclusivamente é uma manobra muito desleal por parte dos que defendem a proibição das pesquisas - manobra na qual quase todos caem como patinhos.

Raciocinem comigo: Os defensores da proibição das pesquisas com células-tronco embrionárias alegam que existe vida a partir da concepção, e por isso acreditam que os estudos estariam violando aquelas vidinhas, mesmo que estejam congeladas em um tubo de ensaio. Ok.

Só que esses embriões, congelados há mais de 3 anos, quando não são utilizados pelos genitores são simplesmente descartados, jogados fora, no lixo, literalmente. E isso, segundo os que não concordam com a regulamentação das pesquisas, pode!

Ora, se o interesse maior de toda a tese de defesa da proibição das pesquisas está focado na existência de vida a partir da formação do embrião, qual é a lógica em aceitar o descarte dessas vidas? Quer dizer, jogar fora pode, mas pesquisar não pode. É basicamente isso que eles defendem. Dá pra concordar???

Claro que não!

Essa tese só teria algum fundamento se não houvesse sequer a legalização da concepção não-natural, pois neste caso não existiram embriões congelados aos montes nos laboratórios das clínicas de reprodução espalhadas por aí, aí sim o argumento seria lógico, embora mesmo assim eu discordaria.

O fato, no meu humilde ponto de vista, é que a ciência e a tecnologia evoluíram de modo incrível nas últimas décadas, e se somos seres dotados de inteligência, temos obrigação de usá-la a favor do bem comum, e isso significa buscar cura e/ou tratamento pra doenças que até hoje são uma incógnita pra medicina.

Está mais do que comprovado cientificamente que as pesquisas com células-tronco embrionárias podem ser a resposta para muitas questões até hoje insolúveis. Tantas e tantas doenças sem cura, tantas e tantas pessoas que sofrem sem ter alternativa de um tratamento eficaz para suas moléstias poderiam renovar suas esperanças se as pesquisas fossem levadas adiante, mas essa questão - que também envolve vidas, inúmeras vidas - não parece ser devidamente considerada por aqueles que são contra a regulamentação.

E, só pra encerrar, embora uma coisa não necessariamente justifique a outra, não podemos deixar de pensar que vivemos num país de miseráveis, onde crianças são paridas aos montes e criadas de qualquer jeito - isso quando são "criadas", há situações execráveis de crianças jogadas na rua sem o menor pudor, que desde a mais tenra idade não têm qualquer acesso aos princípios básicos de higiene, educação, não recebem o tratamento mínimo que seria necessário para sobreviverem com dignidade, e para esse caos é muito mais fácil fazer vistas grossas, ao que parece.

Pessoas tão preocupadas com o princípio constitucional da inviolabilidade da vida, pessoas tão preocupadas com a proteção suprema da vida, poderiam muito bem focar seus esforços em manter inviolável a vida das crianças que já nasceram e que estão vivendo sem nenhuma perspectiva de futuro. Poderiam focar seus esforços em garantir a inviolabilidade dessas crianças reais, que são violentadas todos os dias, moralmente, sexualmente, de todas as formas possíveis, e que não recebem sequer um milésimo da atenção que as pessoas dispensam aos embriões congelados, como se fossem menos importantes que essas vidas congeladas simplesmente porque já nasceram, então não importam mais!

Assim como eles concordam em "jogar no lixo" as células-tronco congeladas ao invés de permitirem a pesquisa para o bem da humanidade, também concordam em jogar no lixo do Mundo bebês que nascem com vida e que são condenados a viver à margem da sociedade, porque lutar pela inviolabilidade da vida dessas crianças reais que povoam nossas ruas e favelas certamente daria muito mais trabalho do que ficar discutindo a inviolabilidade de embriões congelados com argumentos floreados.

Sei que esse argumento é altamente contestável porque foge do cerne da questão central das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas ainda assim é inevitável pensar nisso. Um país que foca tantos esforços para proibir um avanço inequívoco da medicina em busca de um futuro melhor e negligencia seu próprio povo que tem sua vida e sua dignidade violadas o tempo tdo - inclusive pelos poderosos - não pode mesmo ser taxado de outro adjetivo que não seja hipócrita.

Falar é fácil. Elaborar discursos inflamados embasados nos princípios religiosos é fácil. Convencer toda uma população semi-analfabeta com argumentos floreados embasados nos fundamentos da Igreja é bem fácil. Difícil é agir efetivamente em prol do povo, difícil é buscar medidas práticas para manter inviolável a vida do povo, que é violentado cotidianamente por uma sociedade medíocre que fala muito mais do que faz.

Mas, ainda resta uma fiozinho de esperança. O julgamento da tal Ação de Inconstitucionalidade é hoje à tarde, e só nos resta esperar que prevaleça a sensatez há muito perdida pela maioria dos nossos líderes, e que as pesquisas com células-tronco embrionárias sejam finalmente autorizadas, porque isso com certeza será uma ação efetiva em prol do bem comum.

É a minha opinião!

5 comentários:

Fernanda Perrú disse...

apesar de ser católica sou totalmente a favor de qualquer tipo de pesquisa que tenha como objetivo salvar vidas, ajudar na cura de doenças incuráveis e etc. é um absurdo a quantidade de pessoas que são prejudicadas pela ignorancia de certos políticos. se algo pode se fazer para melhorar a vida ou o bem estar de alguém, que seja feito!
é impossivel deixar valores do século retrasado dominarem nossa sociedade atualmente. temos que lutar por essa mudança. só quem tem/ perdeu alguém por uma doença incurável sabe o que é a esperança de cura com a tecnologia atual. não precisamos perder mais vidas por valores tão retrógrados.

Noivinha Pâm disse...

Flor estou totalmente de acordo contigo...

Aplausos pra ti.. Belas palavras...

Beijosssss

gabriela disse...

maravilhoso o seu texto e concordo com plenamente com você!
vou até usar a sua idéia para o meu trabalho da faculdade!
parabens

beijos ;*

Thayna disse...

Vcê se expressou mt bem.
tmb sou a favor das pesquisas com células-tronco,e vcê tá completamente certa.
parabéens

bjs,bjs !

Anônimo disse...

Muito bom o texto, me ajudou bastante aqui no trabalho.Sou totalmente a favor, apesar de ser católico.
Beijos