
Estava chegando em casa hoje à tarde, e enquanto esperava o portão da garagem abrir, passou por mim um velhinho vendendo algodão-doce. Comprei 1 cor-de-rosa, entrei em casa, me joguei no sofá e fiquei me lambuzando igual criança com aqueles doces
pedacinhos de nuvem...
E então comecei a lembrar de um passado que agora parece tão distante, mas um passado tão bom que não provoca em mim outra sensação que não seja uma saudade imensa...
Quando eu era criança, lá nos idos dos anos 80, meu avô materno vivia fazendo bicos pra faturar uma graninha extra... E uma vez ele comprou uma máquina de algodão-doce. Era uma geringonça esquisita, barulhenta, que fazia uma tremenda sujeira, mas pra nós - crianças - era apenas uma máquina de fazer nuvens coloridas...
Nessa época, ir passar o final de semana na "casa da vovó" era uma diversão... Meu avô era meio bravo, não gostava de criança mexendo nas coisas dele, mas deixava a gente ficar perto enquanto ele trabalhava na máquina, e era maravilhoso assistir a mágica que acontece quando o açúcar vira algodão... Aos poucos, ia-se formando aquele arco-íris de algodões-doces coloridos, que ele arrumava em degradê fincados em torno do suporte.
Domingo à tarde, depois do almoço, meu avô pegava seu suporte lotado e entregava outro pra minha mãe, e saíamos todos pra vender algodões-doces, fazendo longas caminhadas ziguezagueando pelas ruas do bairro, sempre tocando aquela buzininha pra anunciar que estávamos passando.
Vendíamos bem, conversávamos com as pessoas que compravam, ajudávamos a escolherem a melhor cor, e quase sempre voltávamos pra casa da vovó com o suporte vazio, ou com meia-dúzia de sobra, apenas... Era então que podíamos comer o doce, um inteiro ou uma parte se a sobra fosse pequena, e nesse momento a alegria estava completa... Às vezes, quando não sobrava nenhum, meu avô ficava de bom humor e ligava a máquina outra vez, e nos deixava fazer nossos próprios algodões-doces, e isso tornava o sabor ainda melhor...
Bons tempos...
Tempos em que o "de porta em porta" era comum... Quase tudo era vendido dessa forma, tinha o vendedor de algodão-doce, o vendedor de quebra-queixo, o vendedor de sorvete, a vendedora de Yakult, o vendedor de pão, o vendedor de livros (a famosa enciclopédia Barsa), o vendedor de colchões, as vendedoras de toalhas de mesa e outros itens de cozinha, o vendedor de pamonha, o vendedor de frutas, etc, etc, etc...
Durante as férias de Janeiro, passavam nas ruas umas caminhonetes velhas, anunciando a troca de vasilhames de vidro por doces, bolas ou pintinhos... Eles passavam recolhendo garrafas que seriam jogadas no lixo, e normalmente faziam isso no começo do ano porque era a época em que juntávamos algumas garrafas de Sangue de boi e de Sidra Cereser, só consumidas nas festas de Natal e Ano Novo... Quando essas caminhonetes passavam no bairro era uma farra... escutávamos o som do megafone, corríamos pra pegar nossas garrafas e ficávamos no portão esperando o carro se aproximar e parar. Juntava aquela roda de crianças afoitas em volta do carro, doidas pelos "brindes", e em tempos de vacas magras, num bairro pobre, ganhar um pirulito que fosse era motivo pra festa...
É bem verdade que ainda hoje alguns desses vendedores persistem... em bairros do subúrbio (como onde moro) de vez em quando passa o carro da pamonha, o carro da cândida, o carro do não-sei-o-quê... Mas não tem mais a mesma magia... é tudo muito impessoal.
Evoluímos, mas nem tudo na "evolução dos tempos" é assim tão positivo... Antigamente, tínhamos a oportunidade de bater papo com o tiozinho que vendia o algodão-doce, conhecíamos o pamonheiro pelo nome, sabíamos o dia do aniversário do padeiro e assim por diante. Estabelecíamos relações com as pessoas, fosse numa ida ao banco ou atendendo mais um vendedor "de porta em porta".
Hoje, com o avanço tecnológico, está tudo mecanizado, quando vamos ao banco conversamos com a máquina do caixa eletrônico, quando vamos comprar pão, não precisamos mais falar com o padeiro, pois eles já estão numa prateleira embalados em quantidades redondas - 5, 10 ou 15 unidades, e nos recusamos a abrir a porta para os raros vendedores de bairro que ainda existem, por conta do medo, da insegurança, da paranóia da violência.
Nem mesmo ao telefone conseguimos humanizar essas relações. Se ligamos para alguma empresa, somos atendidos pelo sistema informatizado do "disque 1 para isso", "disque 2 para aquilo"; Se ligamos para um amigo muito ocupado, somos atendidos pela secretária eletrônica ou pela caixa postal do celular; Se queremos comprar qualquer coisa - até o yakult ou a pamonha - podemos fazer isso pela internet, e assim nos aprisionamos na solidão do mundo sem contato físico, onde ninguém se conhece, onde ninguém sabe o nome de ninguém, e vamos nos acostumando a ignorar o ser humano, como se não precisássemos mais dele.
Quando eu era criança, na época das Festas Juninas, a escola fazia uma competição entre as classes, pra ver quem arrecadaria mais prendas (prendas = tudo que possa ser vendido ou dado como prêmio nas barraquinhas das Festas Juninas). A classe campeã era sempre presenteada com um passeio, e os alunos se empenhavam a valer. Eu e minha irmã saíamos na vizinhança pedindo prendas, batíamos de porta em porta, tanto nas casas do vizinhos que conhecíamos como nas casas dos desconhecidos, e então explicávamos que era uma arrecadação pra festa da escola, blablablá... Geralmente conseguíamos alguma coisa em todas as casas, nem que fosse uma caixa de fósforos, e voltávamos felizes da vida com a sacola cheinha de coisas pra levar pra escola no dia seguinte, além das muitas histórias pra contar, sobre a "Dona" que foi grosseira, a outra "Dona" que queria bater papo, a outra "Dona" que ofereceu suco e bolo, e assim por diante.
Hoje em dia as escolas continuam solicitando aos seus alunos que levem as tais prendas. Mas sabe o que nós (mães e pais) fazemos? Vamos a uma dessas lojinhas de R$ 1,99 e compramos uma dúzia de tranqueirinhas, que nossos filhos levam como contribuição, porque ninguém mais cogita deixar os próprios filhos saírem na vizinhança batendo de porta em porta... é perigoso, não é de bom tom incomodar os outros pra pedir coisas, então fazemos o óbvio: pagamos. Compramos as prendas e nossos filhos ganham (ou perdem) a competição da escola, mas não vivem a sensação de voltar pra casa com a sacola cheia de coisas que ganharam graças à suas lábias, não vivem a sensação de ser convidado por um estranho - sem maldade - pra comer um doce, não ganham histórias pra contar um dia...
Por isso tenho tanta saudade da minha infância... Era uma época em que comprar era um verbo raramente conjugado, éramos muito humildes e não tínhamos acesso a tantas coisas bacanas do mundo moderno, mas improvisar brincadeiras sem brinquedos era mais divertido, balas, pirulitos e bombons eram mais gostosos porque eram raros, sair na rua não era nenhum bicho de sete cabeças e não precisávamos ter medo de aceitar um pedaço de bolo oferecido pela vizinha da casa ao lado, porque não vivíamos essa paranóia que nos afasta cada vez mais das relações humanas...
Acho que esse meu post ficou meio brega, eu sei... Mas a saudade é brega, afinal... essencialmente brega... E, a mais a mais, só o que eu queria era contar a história do algodão-doce, o pedacinho de nuvem colorido responsável por tantos momentos divertidos da minha velha infância!